Da escrita ao correio: projeto “Cartas” encerra a carreira de 42 anos dedicados à educação do Professor Sálvio Pires, de Pedro Leopoldo, com homenagem na ALMG
Iniciativa estimula o hábito de enviar cartas no século XXI através da história brasileira
Receber o reconhecimento na Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) é um marco para qualquer profissional, mas, para o Professor Sálvio Pires, o reconhecimento público teve um sabor ainda mais especial. O projeto “Cartas” nasceu de um desafio pedagógico clássico: fazer com que os estudantes enxergassem relevância no ensino de História.
Em vez de se limitar aos livros didáticos e às telas de celulares, o professor propôs um exercício prático de desaceleração e escuta. Os temas das atividades mudavam conforme o contexto, passando por períodos como o Brasil de 1946 a 1984 até o centenário de Pedro Leopoldo, cidade em que o projeto foi desenvolvido, mas a dinâmica central permanecia humana e investigativa.
Para realizar a tarefa, o estudante precisava vestir o papel de historiador do seu próprio cotidiano. Ele entrevistava um familiar para colher memórias sobre o tema proposto, redigia uma carta escrita à mão com suas reflexões e a enviava pelo correio para o endereço do professor.
Após quase duas décadas dedicadas a conectar a sala de aula à vida real por meio da escrita de cartas, Sálvio enxerga o momento como a coroação de uma trajetória. “Esta homenagem fecha com chave de ouro minha carreira. Foram 42 anos dedicados ao ensino da história em sala de aula. Espero que o projeto sirva de inspiração para que outros colegas possam aplicá-lo também nas escolas em que trabalham, para o bem da educação”, celebra o educador.
Um dos momentos mais marcantes do projeto ocorria durante o aniversário da instituição de ensino, quando os jovens conversavam com pais e mães que também haviam sido estudantes da mesma escola em um passado recente. A troca gerava um ponte direta entre o passado e o presente.
Segundo o professor, os relatos de gratidão de ex-estudantes e familiares eram emocionantes e provocavam uma mudança imediata de postura na turma: ao compreenderem o valor daquela trajetória, os estudantes passavam a valorizar muito mais os seus próprios professores.
Mais do que uma aula de redação ou historiografia, a prática funcionou como um antídoto contra o imediatismo das redes sociais. “Com este trabalho, os estudantes viram muito mais sentido e importância no estudo da História”, destaca Sálvio. “O projeto foi uma oportunidade para o estudante deixar o mundo virtual e prestar mais atenção no mundo real, ali, à sua volta.”
Ao olhar para trás, o Professor Sálvio deixa um legado que vai muito além das notas escolares. Ensinou gerações a ouvir a própria comunidade, a cultivar a gratidão e a registrar a História com as próprias mãos.
Foto: Willian Dias/ALMG
* Este conteúdo foi produzido durante o período de restrição eleitoral e disponibilizado somente após a oficialização do término das eleições